Institucional
Nenhuma a menos: um manifesto pela vida, pelo trabalho e pelos territórios das mulheres.
8 de março de 2026
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Enquanto mulheres continuam sendo assassinadas, estupradas, exploradas e silenciadas todos os dias, não há flores que possam suavizar o significado do 8 de março.

O Dia Internacional das Mulheres não é uma data de celebração confortável. É uma data que existe porque mulheres lutaram, e continuam lutando, para existir com dignidade. Ele nasceu das greves de trabalhadoras que enfrentaram jornadas desumanas, exploração e violência para exigir direitos básicos: salário justo, descanso, respeito e vida.

O 8 de março nasceu da luta das mulheres trabalhadoras. E, mais de um século depois, essa luta continua.  Porque ainda hoje, em pleno século XXI, ser mulher continua sendo um risco em muitos lugares do mundo e no Brasil também.

Os números são duros e não podem ser ignorados. Em 2025, o país registrou 1.518 feminicídios, o maior número desde que esse crime passou a ser reconhecido na legislação brasileira. Isso significa que quase quatro mulheres são assassinadas todos os dias simplesmente por serem mulheres. Nos últimos dez anos, mais de 13 mil mulheres foram mortas por feminicídio no país. Antes da morte, muitas dessas mulheres já haviam vivido anos de violência.

A violência contra mulheres continua sendo uma realidade cotidiana. Milhões sofrem agressões físicas, psicológicas ou sexuais todos os anos, muitas vezes dentro da própria casa, no lugar que deveria ser de proteção. Muitas dessas violências acontecem em silêncio, atravessadas pelo medo, pela vergonha ou pela dificuldade de acesso a redes de proteção. Somente no primeiro semestre de 2025 foram registrados quase 34 mil estupros contra mulheres no Brasil, uma média de 187 casos por dia. Cada número desses representa uma vida violentada, uma história interrompida, uma família marcada pela dor.

Mas a violência contra mulheres não começa no assassinato. Ela começa muito antes, nas estruturas de desigualdade que organizam a sociedade.

Ela está nos salários menores, na sobrecarga de trabalho, na invisibilidade política e na desvalorização das vidas e das vozes das mulheres. No Brasil, mulheres recebem em média cerca de 20% a 22% menos que os homens. Para as mulheres negras, a desigualdade é ainda mais profunda, resultado de um sistema que combina racismo e desigualdade de gênero. Mesmo quando têm maior escolaridade, continuam recebendo menos. Mesmo quando trabalham mais, continuam sendo menos valorizadas.

E as mulheres trabalham mais. Muito mais.

Segundo dados do IBGE, mulheres dedicam mais de 21 horas por semana ao trabalho doméstico e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicam cerca de 11 horas. Essa é a realidade da dupla jornada de trabalho que marca a vida de milhões de brasileiras. Para muitas mulheres, o dia começa antes do amanhecer e termina tarde da noite. Trabalham fora para garantir renda, voltam para casa para cozinhar, limpar, cuidar dos filhos, cuidar de idosos, organizar a vida da família e sustentar emocionalmente as pessoas ao redor.

É um trabalho essencial para a vida coletiva, mas que muitas vezes permanece invisível, sem remuneração e sem reconhecimento.

Essa sobrecarga se torna ainda mais dura quando somada a jornadas de trabalho exaustivas. No Brasil, milhões de trabalhadores ainda vivem sob regimes como a escala 6×1 — seis dias de trabalho para apenas um dia de descanso. E quem mais sofre com essa realidade são as mulheres. Porque, além das longas jornadas no trabalho formal, continuam sendo responsáveis pela maior parte do cuidado doméstico e familiar. Para muitas mulheres, a escala 6×1 significa viver permanentemente cansada, sem tempo para descansar, estudar, participar da vida comunitária ou ocupar espaços de decisão.

Discutir condições dignas de trabalho também é discutir a vida das mulheres.

Mesmo diante dessas desigualdades, são as mulheres que sustentam grande parte da vida social e econômica do país. Hoje, mais de 40 milhões de lares brasileiros são chefiados por mulheres. Em milhões de casas, são elas que garantem o sustento da família, que colocam comida na mesa, que pagam contas, que cuidam dos filhos e que mantêm a vida cotidiana funcionando.

Nos territórios tradicionais, nas comunidades rurais e nas regiões costeiras, essa realidade se torna ainda mais evidente. No Brasil, existem mais de um milhão de pescadores profissionais registrados, e quase metade deles são mulheres. São mulheres pescadoras, marisqueiras e trabalhadoras da pesca artesanal que garantem alimento, movimentam economias locais, preservam conhecimentos tradicionais e defendem territórios e recursos naturais. Mesmo assim, continuam sendo invisibilizadas nas políticas públicas e enfrentando desigualdades profundas. Estudos mostram que pescadoras artesanais ganham, em média, cerca de 27% menos que os homens na mesma atividade.

No Delta do Parnaíba, um dos territórios costeiros mais importantes do Brasil, essa realidade tem rosto, nome e história. São mulheres pescadoras, marisqueiras, catadoras de caranguejo, agricultoras, artesãs e lideranças comunitárias que sustentam a vida nas ilhas, nos manguezais e nas comunidades costeiras. São elas que acordam antes do amanhecer para ir ao mangue, que enfrentam maré, sol e lama para garantir alimento e renda para suas famílias. São elas que mantêm vivas as redes de solidariedade, os saberes tradicionais e as formas de cuidado que sustentam o território.

Mas essas mulheres também enfrentam invisibilidade nas políticas públicas, precariedade no acesso a direitos e, muitas vezes, ameaças quando se levantam para defender seus territórios. Ainda assim, continuam sendo a base da resistência e da vida no Delta. Porque quando uma mulher se levanta para defender o mangue, o rio e sua comunidade, ela está defendendo muito mais do que um território. Ela está defendendo a vida.

Na nossa instituição, essa realidade não é apenas discurso. Somos uma organização construída, liderada e sustentada por mulheres. Mulheres negras que coordenam projetos, que articulam comunidades, que conduzem processos coletivos e que estão na linha de frente da defesa dos territórios. Aqui, mulheres tomam decisões, constroem caminhos e fortalecem redes de luta.

Sabemos que cada espaço ocupado por uma mulher hoje é resultado da luta de muitas outras que vieram antes. E sabemos também que ocupar esses espaços ainda significa enfrentar desigualdades, racismo, violência política e tentativas de silenciamento.

Por isso, neste 8 de março, não queremos romantização.

Queremos respeito.
Queremos segurança.
Queremos dignidade no trabalho.
Queremos que as vidas das mulheres sejam protegidas.
Queremos que suas vozes sejam escutadas.
Queremos mais mulheres nos espaços de decisão na política, nas instituições, nas comunidades e nos territórios.

Queremos um país onde meninas possam crescer sem medo.
Queremos um país onde mulheres possam viver, trabalhar e liderar com dignidade.
Queremos um país onde nenhuma mulher seja assassinada por ser mulher.

Enquanto houver violência contra mulheres, o 8 de março continuará sendo um dia de luta.

E por isso também é um chamado.

Um chamado para que a sociedade não se cale diante da violência.
Um chamado para que instituições se posicionem.
Um chamado para que homens assumam responsabilidade no enfrentamento dessa realidade.

Mas é também um chamado entre nós, mulheres.

Para que sigamos unidas.
Para que nenhuma caminhe sozinha.
Para que continuemos abrindo caminhos onde antes havia silêncio.

Porque, quando mulheres se levantam juntas, territórios se transformam.

Quando mulheres ocupam espaços de decisão, a democracia se fortalece.

E quando mulheres defendem a vida, defendem o futuro de todos.

Seguiremos aqui.

Com nossas vozes.
Com nossa coragem.
Com nossa luta.

Porque nenhuma mulher deve morrer por ser mulher.

Porque nenhuma luta por dignidade pode esperar.

E porque a história já mostrou muitas vezes:
Quando mulheres se organizam, o mundo muda.