Simulado conclui preparação para manejo científico de peixes-bois nativos no Piauí

Operação realizada no estuário dos rios Timonha e Ubatuba testou embarcações, rede, comunicação, segurança e resposta das equipes, sem captura ou manejo de animais.

Neste mês foi realizado, no estuário dos rios Timonha e Ubatuba, em Cajueiro da Praia – PI, um simulado preparatório para futuras operações de manejo científico de peixes-bois-marinhos nativos (Trichechus manatus). O exercício avaliou, em condições reais de campo, a estrutura, os equipamentos, a logística, a comunicação e os protocolos de segurança necessários para a execução responsável dessa atividade.

Imagens: Acervo FaunaMar|CIA – Rhuam Ewerton

Nenhum peixe-boi foi capturado, contido ou manejado durante o simulado, e não houve aproximação direcionada aos animais. Todas as etapas foram realizadas utilizando um tambor, para simular o peixe-boi, permitindo que as equipes treinassem os procedimentos sem interferir nos peixes-bois reais presentes na área. O objetivo central foi identificar antecipadamente riscos, falhas e necessidades de ajuste, reduzindo o tempo e aumentando a segurança de uma futura intervenção autorizada.

A iniciativa foi promovida pelo Projeto FaunaMar, executado pela Comissão Ilha Ativa (CIA), com parceria da Petrobras e pelo Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), com patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. A operação contou com a parceria do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA/ICMBio) e da ONG Aquasis, bem como o apoio da APA Delta do Parnaíba/ICMBio e da APA da Barra do Rio Mamanguape/ICMBio, além da comunidade local.

Uma operação integrada no território

Ao todo, 46 pessoas participaram da preparação, entre pesquisadores, médicos-veterinários, biólogos, oceanógrafos, condutores de embarcações, profissionais de comunicação e apoio, representantes de órgãos ambientais e sete pescadores locais. As equipes atuaram de forma coordenada, com funções previamente definidas e comunicação permanente entre as embarcações, a base operacional e os pontos de observação.

Os pescadores locais tiveram participação decisiva. Distribuídos em cinco pontos fixos de monitoramento, contribuíram com informações sobre marés, correntes, ventos, profundidades, canais de navegação e movimentação dos animais. A experiência desses profissionais complementou os dados científicos e fortaleceu a segurança das manobras, reafirmando o papel do conhecimento tradicional no planejamento das ações de conservação.

O que foi testado

O simulado incluiu testes com a embarcação Sereia, adaptada para operações com peixes-bois; a rede de cerco; as embarcações de apoio; os pontos fixos de observação; o fluxo de comunicação por rádio; e os procedimentos de lançamento, posicionamento, fechamento e recolhimento da rede. Também foram simulados os procedimentos de manejo do animal, bem como as etapas de avaliação clínica e coleta de amostras biológicas.

“O manejo científico começa muito antes de qualquer contato com o animal. Durante o simulado, testamos a navegação, os equipamentos, a comunicação, o tempo de resposta e a função de cada integrante. Essa preparação é indispensável para que uma futura operação seja rápida, segura e produza informações relevantes sem perder de vista, em nenhum momento, o bem-estar do peixe-boi.” afirma Liliana Souza, coordenadora de pesquisa do Projeto FaunaMar.

Os tempos de cada etapa foram cronometrados para avaliar a eficiência da operação e reduzir ao mínimo necessário a duração de um futuro manejo. O exercício permitiu verificar o posicionamento das embarcações, a circulação das equipes, a disponibilidade dos equipamentos, a sequência dos procedimentos e a capacidade de comunicação e tomada de decisão.

Durante o simulado, três peixes-bois-marinhos foram avistados na área selecionada para as manobras. Os animais foram apenas observados, sem aproximação ou interferência. O registro reforçou a importância ecológica do estuário e confirmou a consistência das informações produzidas pelos projetos FaunaMar e AMEAS, que subsidiaram a escolha do local.

“O resultado do simulado demonstrou a importância da integração entre organizações de conservação, órgãos ambientais, pesquisadores e comunidade local. Uma operação dessa complexidade exige protocolos bem definidos, comunicação eficiente e uma equipe preparada para atuar de forma coordenada, sempre priorizando a segurança e o bem-estar dos animais”, afirma João Carlos Borges, coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho.

Bem-estar animal como princípio

O treinamento foi estruturado para que todas as etapas de uma futura operação sejam realizadas no menor tempo possível e com acompanhamento veterinário contínuo. Somente animais adultos considerados elegíveis pela equipe técnica e que não estejam acompanhados de filhotes dependentes poderão integrar a atividade. Após a avaliação clínica, biometria, identificação e coleta de amostras previstas no protocolo, os indivíduos serão devolvidos ao próprio habitat.

Quando tecnicamente indicado, animais selecionados poderão receber transmissores de telemetria para acompanhamento de seus deslocamentos. Essa etapa dependerá das condições ambientais e da conferência final dos protocolos, equipamentos e critérios de segurança.

Porque preparar a próxima etapa

A população de peixes-bois-marinhos que utilizam o estuário Timonha-Ubatuba ainda é insuficientemente conhecida. Os monitoramentos confirmam a presença recorrente da espécie, a formação de agrupamentos e a ocorrência de filhotes, mas ainda faltam informações sobre saúde, genética, deslocamentos e conectividade com outras regiões do litoral.

Essa necessidade ganhou maior urgência diante dos 12 encalhes de filhotes registrados entre 2017 e 2026, considerando que até 2016 não havia ocorrências conhecidas na área acompanhada. A futura pesquisa não determinará isoladamente as causas desses eventos, mas poderá produzir informações sobre saúde e áreas de uso e indicar se os animais frequentam ou atravessam setores expostos a tráfego de embarcações, portos pesqueiros, redes de pesca, carcinicultura, ocupação costeira e outras alterações do habitat.

Como o estuário está inserido na APA Delta do Parnaíba, esses dados poderão contribuir para o Plano de Manejo da Unidade de Conservação, o licenciamento ambiental, o ordenamento das atividades e a definição de áreas prioritárias para proteção. Assim, a preparação realizada no simulado constitui uma etapa necessária para que a pesquisa avance com segurança e produza informações aplicáveis à conservação da espécie e à gestão do território.

Resultados e ajustes identificados

A avaliação geral foi positiva. O simulado confirmou a viabilidade operacional das áreas selecionadas, fortaleceu a integração entre as instituições e a comunidade e validou a comunicação entre embarcações, base e pontos de observação. Também permitiu identificar adequações finais na embarcação utilizada “Sereia”, na distribuição dos chumbos da rede, nos equipamentos de proteção individual e nos protocolos de comunicação e contingência.

Antes de qualquer operação com animais, esses ajustes deverão ser concluídos e toda a estrutura passará por nova conferência técnica. A realização da próxima etapa dependerá de condições ambientais adequadas, autorizações vigentes e cumprimento integral dos protocolos de segurança e bem-estar animal.

Mais do que ensaiar uma captura, o simulado consolidou uma rede de cooperação entre ciência, gestão ambiental e conhecimento tradicional. O exercício aumentou a capacidade das equipes de responder de forma coordenada e segura e estabeleceu uma base técnica para a continuidade da pesquisa e da conservação do peixe-boi-marinho no litoral do Piauí.

Contato para a imprensa

Comissão Ilha Ativa (CIA)/Projeto Faunamar

Chico Rasta  • Coordenador de comunicação

(86) 99479-3825  • Email:  chicorastabrandao@gmail.com / chico@comissaoilhaativa.org.br

Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA)
 
Ícaro Figueiredo • Assessoria de Comunicação Institucional
(79) 9 9647-5948 • icarofigueiredo@mamiferosaquaticos.org.br

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